sexta-feira, abril 11, 2008

Autópsia de nós

















Repara que só tive a coragem criteriosa de nos autopsiar, quando auscultei o coração e me apercebi que já não havia esperança de vida em nós.
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Repara que antes disso, eu não te submeti à frieza da gaveta onde te mantive depois, ao estupor dos membros, nem ao fio de sangue que me escorria da alma.

Nunca antes me tinha submetido ao álcool etílico, nem tão pouco fermentado sentimentos, nos açúcares que me criaras no ventre.
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Acredita que não usei o bisturi em vão, nem tão pouco por vaidade.
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A necrópsia do corpo de paixão que já não habitamos foi um grito urgente das minhas entranhas, na ânsia de saber de que enfermidade tinhamos padecido.
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Acredita-me. Só me atrevi quando antevi o silêncio final, a cruz do jazer sem paz e senti no corpo o peso das pedras de dor.
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Reminiscências de um amor sem ciência.
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Libertados estamos, acredita, usei de todo o cuidado, tu sabes como na cozinha sempre misturei bem condimentos e como fundia, com mestria, sabores.
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Tratei de fazer tudo pela ordem inversa.
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Dar a cada um de nós a essência do antes, remeter no depois, embrulhado em alfazema, cada corpo à sua forma original.
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Agora, só nos pode restar o céu.



61 Comments:

Blogger Frioleiras said...

as asas ( se é que as tive)
que me faziam "voar" ao atelier de gravura, queimaram-se no pó do quotidiano..

últimamente não tenho, uma hora sequer, para mim, isto é sem horários................

fizeste-me ter saudades dos bonecos que fazia....

sexta-feira, abril 11, 2008 1:03:00 da manhã  
Blogger Vieira Calado said...

Longa vida para o seu blog!
Um abraço

sexta-feira, abril 11, 2008 2:23:00 da manhã  
Blogger Um Poema said...

...
Bom regresso, "embrulhado em alfazema".
Obrigado pela visita.

Um abraço

sexta-feira, abril 11, 2008 2:36:00 da manhã  
Blogger inBluesY said...

alfazema, é agradável!

bom regresso

obrigada,

sexta-feira, abril 11, 2008 9:52:00 da manhã  
Blogger Carla said...

uma autópsia que parece ser a ante câmera do enterro de um amor
alfazema...talvez pela cor seja o aroma certo
bom fim de semana

sexta-feira, abril 11, 2008 9:58:00 da manhã  
Blogger O renascer da Fenix said...

Belissimas palavras... há sentimentos que vão além do significado da vida e da morte...

Um abraço...

sexta-feira, abril 11, 2008 10:48:00 da manhã  
Blogger alice said...

é bom ver-te de novo de lápis na mão :) um grande beijinho, vanda.

sexta-feira, abril 11, 2008 11:24:00 da manhã  
Blogger Spectrum said...

que texto fantástico vanda. que texto..

sexta-feira, abril 11, 2008 12:20:00 da tarde  
Blogger Lola said...

Lápis,

Um belo Adeus. Cirúrgico como nas autópsias.Bem arrumado. Definitivo. Depois da mágoa.

E cheira a alfazema, como a roupa que guardamos cuidadosamente nas gavetas da nossa memória.

Beijos

( Obrigada pela visita.)

sexta-feira, abril 11, 2008 12:48:00 da tarde  
Blogger isabel mendes ferreira said...

abraço-te VANDA!!!!!
.




original o destino de quem se desafia..

.

sexta-feira, abril 11, 2008 2:36:00 da tarde  
Blogger legivel said...

... então não me lembro?! e de que maneira!! voltei aos tempos de puto em que tudo me era permitido(?!) até ouvir dizer que os meus desenhos preludiavam um incontornável talento para as artes plásticas. Só que o meu lápis não tinha asas... e foi isso que cortou cerce uma carreira brilhante como piloto... aviador de imperiais bem geladas. Quanto ao "caso aqui tratado", as coisas estão bastante mais facilitadas: um coração com pés pode ir longe. Da mesa fria da autópsia até ao escaldante cemitério dos Prazeres, é uma brincadeira de crianças. Jamais o CSI dará conta do corpo de delito.

beijinhos.

sexta-feira, abril 11, 2008 2:49:00 da tarde  
Blogger Cadinho RoCo said...

Mais afiada que a mais afiada lâmina do mais afiado bisturí capaz de servir com precisão à mais delicada das mais delicadas cirurgias. Maravilha.
Cadinho RoCo

sexta-feira, abril 11, 2008 6:35:00 da tarde  
Blogger M. said...

o lápis é a vanda ? ou é a vanda que é o lápis?
ó linda, isto parece o meu dia-a-dia: bisturis, sangue, eteres e clorofórmios.
A cozinha fica muito longe.
E o amor sem ciência é sem essência.

O meu chefe devia ler isto...

Beijo lápis-vanda

sexta-feira, abril 11, 2008 11:06:00 da tarde  
Blogger PiresF said...

Partem-se e partem, os corações… no entretanto, fica tudo o resto, que não é pouco e pode ser muito doloroso.

Um excelente texto, que marca certamente um regresso duradoiro. Esperemos que sim.

Abraço.

sábado, abril 12, 2008 1:00:00 da tarde  
Blogger notyet said...

Grato pela tua visita.
Continua na luz.

domingo, abril 13, 2008 10:47:00 da manhã  
Blogger JPD said...

Excelente texto.

Estás convidado a visitar

http://agaioladedarwin.blogspot.com

domingo, abril 13, 2008 7:55:00 da tarde  
Blogger Daniel Aladiah said...

O céu, apesar se tudo, contnua sempre lá...
Um beijo
Daniel

domingo, abril 13, 2008 7:59:00 da tarde  
Blogger un dress said...

ui...

o céu!?

pois não sei...não sei.

a essência do antes. não sei...




texto... espesso!

domingo, abril 13, 2008 11:45:00 da tarde  
Blogger Rui said...

Pois eu acho que resta o resto. E o resto é mais que o céu.

segunda-feira, abril 14, 2008 5:38:00 da tarde  
Blogger poetaeusou . . . said...

*
ditosa necrotomia,
em nós
,
conchinhas,
,
*

segunda-feira, abril 14, 2008 6:10:00 da tarde  
Blogger sinhã, a. said...

Sim: recomeça ao contrário. Gostei. :-)

segunda-feira, abril 14, 2008 6:28:00 da tarde  
Blogger Auréola Branca said...

Abrindo o coração diante da partida, ou da chegada de idéias novas...
Muito bom.

segunda-feira, abril 14, 2008 7:26:00 da tarde  
Blogger Leonor said...

voltaste e isso e o que interessa.com um texto muito bonito e com uma imagem fantastica.
mas sabes... nem sempre a aula é de risota.quando se trata da leitura individual os outros escrevem bastante, coitadinhos. mas acho que levam aquilo na boa.
hoje fiz perguntas. estava com pena deles e perguntei, querem levar para casa ou fazer aqui? responderam que queriam fazer na sala. bom, pensei, menos mal.rsss
beijinhos

segunda-feira, abril 14, 2008 8:31:00 da tarde  
Blogger as velas ardem ate ao fim said...

E esta tão longe...

um bjo

segunda-feira, abril 14, 2008 8:34:00 da tarde  
Blogger Joaquim Amândio Santos said...

votos de uma boa dissecação de toda a beatitude ousada do céu que vos acolhe!

segunda-feira, abril 14, 2008 8:59:00 da tarde  
Blogger Joaquim Amândio Santos said...

O céu, esse divino local de devaneios cumpridores do pecado!

segunda-feira, abril 14, 2008 9:52:00 da tarde  
Blogger Joaquim Amândio Santos said...

O céu, esse divino local de devaneios cumpridores do pecado!

segunda-feira, abril 14, 2008 9:52:00 da tarde  
Blogger BC said...

E o céu é o limite!
Sorrisos, afectos e palavras para oferecer...

segunda-feira, abril 14, 2008 10:06:00 da tarde  
Blogger efe said...

«Não costumo gostar de gajos porreiros :) mas curti ler-te!»

- sou um gajo porreiro, mas só às vezes!

gostei destas "fotografias" literárias. destas poesias em prosa.

Já agora, não sei se é intencional ou acidental a opção de deixar correr para o fundo da página as colunas de links e outras, mas se é acidental acho que tal se deve ao facto de inserires fotografias demasiado largas, se as reduzires para 400pixels de largura no máximo, já as colunas não devem ficar no fundo da página mas no lugar habitual do template, neste caso em cima à esquerda.
Saúde, e boas viagens pelo universo das palavras.

segunda-feira, abril 14, 2008 10:52:00 da tarde  
Blogger Perdido said...

Dizes "Reminiscências de um amor sem ciência."

Apraz-me citar-te S.João da Cruz:

"Este saber no sabiendo
es de tan alto poder,
que los sabios, arguyendo,
jamás le pueden vencer;
que no llega su saber
a no entender entendiendo,
toda sciencia trascendiendo."


Obrigado pela vista ao meu blog.

segunda-feira, abril 14, 2008 11:24:00 da tarde  
Blogger Alien8 said...

Este lápis tem mesmo asas. Hoje tive tempo, e vim aqui constatar isso mesmo. Os desenhos da Medusa Azul são adequados aos textos da Vanda, e o conjunto resulta muito bom. Gostei particularmente d'"O Gato", mas a Vanda sabe que, nesse capítulo, sou suspeito... :)

Prazer em conhecer a Medusa. Quanto à Vanda, somos velhos conhecidos, e lembramo-nos de coisas :)))

Um abraço a ambas.

segunda-feira, abril 14, 2008 11:29:00 da tarde  
Blogger Isa&Luis said...

Olá meninas,

Sorrio feliz com o vosso regresso...o céu ficou mais azul...

Beijinhos para ambas.

Isa

terça-feira, abril 15, 2008 11:30:00 da manhã  
Blogger DelfimPeixoto said...

Feliz regresso!
Espero que visitem sempre a minha "casa", pois está sempre de portas abrtas, a quem vem por bem
bjs

terça-feira, abril 15, 2008 12:22:00 da tarde  
Blogger Gerlane said...

É preciso se ter muita coragem para fazer uma autópsia e, mais ainda, para se fazer uma necrópsia do corpo de paixão que deixou de ser habitado.

Beijos pra ti!

terça-feira, abril 15, 2008 9:26:00 da tarde  
Blogger ~pi said...

processp clínico consumado.

segue se o dos restos

que ficam ao acaso

pendurados nas árvores!!...

quarta-feira, abril 16, 2008 2:34:00 da manhã  
Blogger Tita said...

Que bom ter-vos de volta

Beijos

quarta-feira, abril 16, 2008 3:56:00 da tarde  
Blogger legivel said...

... afinal a autópsia ainda decorre. Espero que o relatório seja clarificador. De morte natural ou macaca, de facto o céu espera-nos. O céu que cada um arquitecta à sua imagem e medida.

Cá em "baixo" ficam os lápis que nos desenham os epitáfios.*

*Có horror!!


beijos, abraços e sorrisos.

quinta-feira, abril 17, 2008 10:11:00 da manhã  
Blogger multiolhares said...

Quando a fénix já não pode renascer das cinzas, é preciso coragem para fazer a autopsia.
beijinhos

quinta-feira, abril 17, 2008 9:57:00 da tarde  
Blogger R.G. said...

obrigado pela visita e pelo comentário que fez ao meu cantinho.

Volte Sempre.

quinta-feira, abril 17, 2008 11:09:00 da tarde  
Blogger Licínia Quitério said...

Contente pelo teu regresso. De novo os bons textos e imagens.

Um beijinho, Vanda.

sexta-feira, abril 18, 2008 12:33:00 da tarde  
Blogger isabel mendes ferreira said...

e tu tb.




sempre.

nas presenças e nas ausências.


beijos mil.

P.S. está mt dificil abrir o reu outro blog V.
demora demora e muitas vezes ...puf...
vai-se.

serei só eu?:(

.


re.beijos.

sábado, abril 19, 2008 11:24:00 da tarde  
Blogger Rui Caetano said...

Ora, a essência do antes abre os caminhos de um amanhã melhor...

domingo, abril 20, 2008 10:52:00 da tarde  
Blogger M. said...

Volta a pegar no bisturi.. :)

domingo, abril 20, 2008 11:34:00 da tarde  
Blogger alecerosana said...

um abraço daqui até... aí!

segunda-feira, abril 21, 2008 12:15:00 da manhã  
Blogger O Profeta said...

Total é a loucura do querer
Breve é chama da doce paixão
Total e insubmissa é a verdade
Que emana do teu terno coração

Sigo os passos da tua procura
Queda-se teu corpo nu em melodia incompleta
És instante da bondade dos Deuses
O canto de uma ribeira que o sol desperta

Boa semana


Abraço

segunda-feira, abril 21, 2008 11:52:00 da manhã  
Blogger isabel mendes ferreira said...

cada vez menos maga...:)
.




.

obrigada V.


.
toda a minha ternura!

terça-feira, abril 22, 2008 9:02:00 da tarde  
Blogger mixtu said...

o céu...
e se este não existir?
tudo foi em vão, inclusive a autopsia, mas se houve autopsia era porque como dizes já não batia...

abrazo serrano

quinta-feira, abril 24, 2008 2:44:00 da tarde  
Blogger Lola said...

Lápis,

Hoje, com tempo, estive a desfrutar o vosso Blog.

É fabuloso pela originalidade dos desenhos e dos textos.

Obrigada às duas.

Beijinhos

quinta-feira, abril 24, 2008 3:41:00 da tarde  
Blogger A.J.Faria said...

Excelente texto!
Bjs,

sábado, abril 26, 2008 11:03:00 da manhã  
Blogger tufa tau said...

embrulhados em alfazema será eternamente

abraço

quinta-feira, maio 01, 2008 5:35:00 da tarde  
Blogger RV said...

q post tão bem feito,no seu todo!

mt bonito,

bjs

sábado, maio 03, 2008 9:55:00 da tarde  
Blogger MADRUGADA... said...

Excepcional, foi aquilo que li.

domingo, maio 04, 2008 4:04:00 da tarde  
Blogger anad said...

Que blogue interessante. Vou voltar mais vezes, vezes sem conta
Anad

domingo, maio 04, 2008 9:00:00 da tarde  
Blogger João Videira Santos said...

um jogo de palavras diferente. apreciei.

quarta-feira, maio 07, 2008 4:01:00 da tarde  
Blogger isabel said...

e como fundes palavras e imagem

adorei conhecer este espaço. arrepiantemente belo

sábado, maio 10, 2008 7:39:00 da manhã  
Blogger Reng Awkin said...

és dona do mais belo comentário em meu espaço de devaneios... e não derrepentemente me surpreendo aqui com uma infinidade de maravilhas escritas e ilustradas que me fazem sentir miúdo.
Ah, mas não por sentimentos mundanos derivados de qualquer tipo de ressentimento, e sim por outros (igualmente mundanos) como os de quem se depara com a grandiosidade de um belo por do sol ao topo de alguma montanha.
E passo a vida entre montanhas...

és mais que benvinda a colorir as linhas grossas que teimo em rabiscar em meu blog...
Obrigado pela visita!
Nik

sábado, maio 10, 2008 2:01:00 da tarde  
Blogger Ursula Caiado said...

Lindo.
Roubei o desenho do cora�o,
adicionei o endere�o aos favoritos.
:)

sexta-feira, maio 16, 2008 2:18:00 da manhã  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

A paz.

As asas. O azul da liberdade.


CSD

segunda-feira, maio 26, 2008 8:32:00 da tarde  
Blogger [A] said...

é verdade! às vezes bem que parece não sermos mais do que cópias...

eu pergunto:
serão mesmo possíveis as realidades paralelas??


quantos aos clássicos...ainda ontem ouvi uma citação do Churchil na qual dizia que quanto mais longe se consegue olhar o passado, mais longe se conseguirá ver o futuro (algo assim)

mas este blog é a prova de que o assombro e o encantamento continuam possíveis.


e num golpa de mágica reencontro a Medusa!

Beijos para ambas.

terça-feira, julho 15, 2008 7:42:00 da tarde  
Blogger f@ said...

Excelente ... o teu lápis tem asas tão especiais ...tb texto mto bonito...
auscultar o coração sempre cuidadosa mente ...
muitas vezes ouve-se gritar....
doente ...
às vezes quando a enfermidade é grave.... ele, o coração pára...
e volta a bater depois da despedida...

domingo, julho 20, 2008 11:14:00 da manhã  
Blogger Van said...

Estes texto é lindo.
Todos nós precisamos "autopsiar-nos" de vez em quando... para perceber do que às vezes padecemos.

Adorei ler e a ideia.

quinta-feira, julho 24, 2008 3:19:00 da tarde  

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